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domingo, 21 de maio de 2017

Untitled

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Hoje o post não vem acompanhado de uma bela poesia e nem de uma bela obra de arte, mas sim de uma notícia de humor trágico e, também, como consolo, de trechos de textos espetaculares de um dos meus maranhenses favoritos, o escritor Ferreira Gullar. E também de um trecho do livro de Ernest Hello.

A obra, que não é de arte, mostrada acima é de Basquiat e foi vendida por nada mais nada menos que US$110,5 milhões, num leilão noturno de arte contemporânea realizado em Nova York, nos Estados Unidos, pela casa Sotheby's, nessa quinta-feira (18 de maio).

Agora leia um trecho da notícia*:

Basquiat (1960-1988), de pai haitiano e mãe porto-riquenha, conseguiu com sua obra "Untitled", de 1982, uma marca histórica para sua curta carreira, com o quadro sendo vendido a esse preço durante um leilão que durou 10 minutos, o mais longo da noite.

A pintura, de 1,83 metros de alto [o certo não seria altura?] e 1,73 de largura, apresentando um perfil em forma de caveira, tinta acrílica, lápis de cera e spray, um marco na obra de Basquiat, que morreu aos 27 anos, de overdose.

Considerada como uma das obras mais importantes do pintor, Basquiat pintou "Untitled" quando era praticamente desconhecido no mundo da arte, e foi comprado por US$ 19 mil, em 1984, durante um leilão.

A venda desta obra é histórica pela reserva, pois estava nas mesmas mãos há 33 anos. A Sotheby's tinha calculado que seria vendida pelo valor de US$ 60 milhões (pouco mais de R$ 200 milhões), e no final conseguiu quase o dobro.

A obra foi comprada pelo empresário e colecionador de arte japonês Yusaku Maezawa, fundador do gigante de comércio on-line Start Today. A casa Sotheby's postou em seu twitter a foto do novo dono ao lado da pintura.

Yusaku Maezawa, ao lado da obra.

Agora leia alguns trechos de textos de Ferreira Gullar, publicados em anos diferentes:

(...) se amasso uma folha de papel, o que daí resulta é uma forma expressiva; pode-se dizer que se trata de uma obra de arte? Se admito que sim, todo mundo é artista e tudo o que se faça é arte.

Já eu considero uma piada achar que todas as pessoas têm o mesmo talento artístico de Leonardo da Vinci e de Vincent van Gogh ou que esse talento seja apenas mais um preconceito inventado pelos antigos. As pessoas são iguais em direitos, mas não em qualidades.

Por Ferreira Gullar, em “Arte sem arte” – texto originalmente publicado no jornal Folha de São Paulo – 21/11/2010

As pessoas que me criticam, dizendo que eu não sou aberto às artes contemporâneas, pensam que eu tenho que achar que coco dentro de lata é arte. O que elas não admitem é que, na verdade, querem apenas estar na moda. Todo mundo hoje é de vanguarda. (...) Quando vanguarda não dava dinheiro, ninguém queria ser de vanguarda. Agora que está na moda, todo mundo quer ser. (...) Para mim, essa arte não tem interesse algum. Eu não sou débil mental. Me responda: você acredita que colocar dois urubus dentro de uma gaiola e mandar para a Bienal seja arte? (...) É uma cretinice. Nós não podemos chegar ao ponto de negar tudo em nome de uma suposta liberdade e inventividade. A verdade é que hoje poucas pessoas têm coragem de dizer as coisas que elas pensam. O cara tem que estar na moda, ser de vanguarda e pronto. (...) Ninguém nunca vai me convencer que dois urubus dentro de uma gaiola é arte. Nunca.

Por Ferreira Gullar, no Suplemento Literário, Imprensa Oficial, Secretaria de Estado de Cultura, Minas Gerais, Março/Abril 2014

Agora o trecho do livro de Ernest Hello**:

A arte perdeu completamente a cabeça. Depois de ter encontrado seus tipos nas regiões das sombras, depois de ter esquecido que o sol é a sua pátria, depois de ter tentado a apoteose do mal, depois de ter celebrado com sua voz desonrada o suicídio e o adultério, depois de ter tentado separar o verdadeiro do belo, ela voltou-se contra o belo. Depois de ter atacado o verdadeiro, que é sua raiz, atacou o belo. Tendo ferido o próprio coração, quis ir até o fim. Tendo persuadido os homens de que a desordem, quer dizer o falso, constituía a beleza, bradou, na lógica de seu delírio: o belo é o feio!
(...)
Santa potência desgarrada, filha querida que foi procurar a vida longe do pai de família, e não encontrou, tu que também partilhaste o alimento dos porcos, tu, cuja mediocridade ousa falar levianamente e que entretanto usas o nome de Arte, infiel, quando te vais converter?

Depois desses trechos incríveis será que ainda resta alguma dúvida de que a obra em questão não é de arte? Só é arte se for de Satã, e disso não duvido. Particularmente, a minha opinião é a mesmíssima de Gullar e de Hello. Acho essa obra extremamente feia.
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Obra: Untitled, de Basquiat (1982).
**O livro de Ernest Hello é "O Homem - A vida, a ciência e a arte"
[grifos meus]