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Quando eu morrer, ninguém venha chorar-me:
Lancem meu corpo à solidão sem termos.
Eu amo aqueles céus, aqueles ermos,
Onde a tristeza Deus vem consolar-me!
Lá, sinto ainda est' alma esvoaçar-me
Eterisada, e eu sonho a renascermos;
Eu e ela, ambos sós, ambos enfermos,
Eu morto já, e ela a despertar-me!
Lá fico aragem, folha, passarinho,
Lá me transforma em eco a solidão,
E a naturea inteira abre-me o ninho.
Oh! Deus de amor! oh! Deus da Criação!
Prende minha alma aos musgos do caminho,
Derrete-me no espaço o coração!...
José Bonifácio de Andrade e Silva (1827-1886)
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Obra: The Mirror, de William Orpen (1900).
